sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Pra quem entende

Antonio
Milly Lacombe

Enxerguei Antonio pela primeira vez em Los Angeles. Ele tinha 2 anos e chegou com o irmão para passar o verão comigo. Cabelos praticamente brancos e muito lisos, orpinho parrudo, pele dourada, boca carnuda e vermelha, apareceu, entre várias malas, grudado na calça da mãe com a força dos que temem a imensidão do mundo, ele olhou. “Essa é sua tia, Antonio”, anunciou minha irmã. “Dá um beijo nela.”O pequeno Antonio me mediu de cima a baixo e decidiu que eu não mereceria seu beijo. Para deixar a decisão muito clara, apertando a perna de minha irmã com mais intensidade, escondeu o rosto. Antonio nasceu em São Paulo quando eu estava de mudança ara s Estados Unidos, e só fui vê-lo na maternidade. A vida estava corrida, eu estava trocando de casca e de mundos, e não tive tempo para freqüentar meu segundo sobrinho estabelecer com ele a relação de intimidade que construí com o irmão. Por isso, depois de dois anos longe da pátria e vendo Antonio apenas por fotos, notei que simplesmente não o conhecia: naquela manhã ensolarada e quente de Los Angeles éramos perfeitos estranhos. Sobre Antonio, eu sabia apenas o óbvio: que ele tinha 2 anos, mas tamanho de 4. Como continuou crescendo assustadoramente, sempre gerou alguma confusão. “Ele ainda não sabe ler?”, perguntavam. E os pais tinham que responder: “Ele mal fala. Ele tem 3 anos!”. Rapidamente, percebi que Antonio era um universo próprio: comia como se o mundo fosse terminar o dia seguinte, falava uma língua única, interagia com qualquer americano que cruzasse seu caminho sem se preocupar se estava se fazendo entender e, quando havia festivais étnicos no parque em frente a minha casa, passava as tardes dançando no meio de adultos, olhinhos fechados, como se estivesse em transe e deixando claro que tinha vindo para este mundo a passeio. Ainda assim, nossa relação afetiva era capenga: eu estava viciada nele, e ele mal me enxergava. Como havia feito com seu irmão, tentei conquistá-lo com uma bola, ensinar dribles, estabelecer um sistema de comunicação só nosso. Não colou. Antonio não se interessava pela bola e estava mais ligado nas árvores e flores do parque, no hambúrguer sem queijo,“só pão e carninha”, como deixava claro para a atendente mexicana do McDonald’s, ou em conversar com adultos que jamais o entenderiam, mas que, ainda assim, ficavam fascinados com aquele ser humano mínusculo, de cabelos brancos e boca vermelha, que parecia sempre muito feliz e faminto.
Espírito livre
Quando voltei definitivamente para o Brasil, Antonio já tinha 8 anos.Aos poucos, foi me deixando entrar em sua galáxia. Quando dormíamos juntos, me abraçava como se eu fosse um travesseiro – uma forma de se entrelaçar que não deixa espaço para que nos mexamos. Ainda assim, nossa relação não era como a que eu tinha com seu irmão mais velho. Salvo pelas noites que passávamos juntos quando os pais viajavam, havia, entre Antonio e eu, uma estranha distância, talvez alimentada pela enorme intimidade que sempre tive com o irmão. Por mais que tentasse, não conseguia todos os números da senha de Antonio. Ele era, para mim, um enigma. E, de uma forma engraçada, ainda é. Antonio não divide comida, não dá gole nem mordida. Se alguém enfiar um garfo em seu prato, pára de comer imediatamente. Nunca gostou de meias ou sapatos e, mais de uma vez, esqueceu seus calçados por aí: a primeira coisa que faz ao chegar em qualquer lugar é tirá-los. Cueca ele passou a usar recentemente, depois de um pequeno acidente escolar que jamais será esquecido. O fato é que Antonio não gosta de nada que o prenda. É um espírito livre. Ama teatro, sorvete de creme, macarrão e Malhação. Detesta brigas, brócolis e discussões. Mas, acima de tudo, adora comida japonesa.Aos 12 anos, calça 42 e freqüenta semanalmente um restaurante japonês. Armado de sua inigualável lábia, sempre convence alguém a levá-lo: o pai, a avó, eu ou até mesmo minha namorada. A verdade inconveniente é que a companhia é o de menos: Antonio senta no balcão e passa horas conversando com os sushimen, que começam a servi-lo sem perguntar o que ele quer, porque Antonio come sempre a mesma coisa. Antonio é um boa-vida e deixa a sensação de que está sempre muito ocupado para se interessar por aquilo que não o interessa. Até hoje, todas as tentativas de dar uma sonora bronca nele – seja porque largou o par de tênis no meio da garagem, porque esqueceu a porta da geladeira aberta, porque comeu cinco pedaços do bolo de chocolate – foram frustradas: Antonio debocha, não se leva a sério e acaba colocando a situação em perspectiva: “Isso importa mesmo? Não podemos ir comer um sushi ou tomar um sorvete?”. Outro dia, no balcão do restaurante japonês, enquanto estava muito ocupado entretendo ossushimen com caretas e cânticos perguntei se ele já havia ficado chateado alguma vez na vida. “Claro que já”, respondeu. “Agora, por exemplo, porque estou com fome e meu sushi não chega.” Falou isso e continuou a cantar. Mas, quando eu já havia me esquecido da pergunta, me puxou para perto e disse baixinho:“Quando a Nononna morreu”.
Com você meu mundo é mais completo
Ontem, jantei na casa de Antonio. Quando ia embora, ele me pediu para ver o jogo do São Paulo com ele na TV. Como Antonio não liga muito para futebol, entendi aquilo como uma declaração de amor e fiquei. Na hora de sair, dei vários beijos nele e fui indo para a porta.Mas ele me chamou de volta. “Fala, Antonio”, disse,esperando uma de suas piadas ou um pedido para levá-lo ao restaurante japonês – ele pode perfeitamente comer sushis depois do jantar. Mas não era nada disso. “Eu te amo”, foi o que disse Antonio. Ele tem essa desconcertante capacidade para emocionar. Eu te amo mais, Antonio”, respondi. Mas, como é sempre dele a última palavra, já na porta tive tempo de ouvir: “Impossível”. Às vezes me pego pensando em como seria meu mundo sem Antonio. Eu, naturalmente, teria um pouco mais de dinheiro porque não gastaria tanto em comida japonesa.Mas,sem Antonio, eu, sem a menor sombra de dúvida, não daria tantas risadas, não me sentiria tão amada e não seria tão feliz.
Nem preciso dizer que eu chorei. Tirei daqui.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Pensando alto

* Ontem fui à exposição Bossa na Oca. Adorei. Cheia de vídeos (que são sempre as partes que eu pulo em exposições) e interatividade. Vale a pena. Mas corre que termina dia 07. E de terça-feira é de graça.
* Alguém aí tem 1 hora do próprio tempo para me dar? To precisando arrumar o guarda-roupa, mas não to conseguindo.
* Semaninha animada. Ontem exposição, hoje aula, amanhã encontro com amiga da faculdade e sexta teatro. Uia. Quem precisa descansar mesmo?
* Eu cismei com o raio do sofá branco. Mas quem disse que eu encontro? Ah sofrimento!!!
* Eu to tentando fazer o meme de sonhos da Dri. Mas tá difícil. Tá faltando um ou dois. E eu continuo pensando.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

História da carochinha

Eu sempre ouvi dizer que jornalistas competiam. Especialmente, os concorrentes entre si. E eu sempre achei balela. Hoje comprovei que isso realmente não existe.
Agendei duas entrevistas com duas emissoras de tevê. Uma era ao vivo, a outra gravada. Mesmo horário. Mesmo entrevistado até. Além dos cinegrafistas todos se conhecerem, as repórteres se revezaram amigavelmente. Cordial. Assim tem que ser. Ninguém compete e todo mundo se ajuda. E não é assim que tem que ser?
Quando a questão é um furo*, a gente não entra no mérito, ok?
* no jargão jornalístico é a matéria desejada por todos: a que revela algo bombástico que ninguém ainda publicou/descobriu.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Sem parar

Semaninha suuper corrida. Mas estou super bem. E super feliz.
Segura. Ganhando e conquistando espaços. Escrever três texto. Aprovados. Elogiados. Um minimamente alterado e consultado. Outro nível. Profissionalismo e independência em área nunca dantes pisadas é muito bom. Mesmo. Me faz feliz e me deixa segura. Por enquanto preciso de pouca coisa mais.
Eu to me sentindo bem segura. Bem certa do que faço. E isso se mostra lentamente. São reconhecimentos que surgem. Conquistas que se evidenciam. E então eu me sinto feliz, segura e começo acreditar no ditado que minha irmã vive repetindo: a fruta não cai do pé sem estar madura. E eu concordo, mas ainda espero - receosa e ansiosa - para saber se estou mesmo ou não pronta para cair do pé.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Encuestas

Começou com a Dri, que passou pra Paula, que me passou.

1. Quais são as três últimas coisas que você comprou?
  • uma blusa de gola alta azul turquesa
  • uma blusa de algodão de gola alta roxa
  • uma camiseta de manga comprida preta
2. Quais são as três últimas músicas que você fez download?
  • Wilson Simoninha
  • Mário Zan
  • Gonzaguinha
(não lembro quais músicas, mas sei que foram deles)

3. Quais são os três últimos lugares que você visitou?
  • Porto Feliz (meu sítio)
  • Bragança Paulista
  • Jaú
4. Quais são seus três filmes preferidos?
  • Moulin Rouge - O amor é vermelho
  • Lisbela e o Prisioneiro
  • Dona da História
5. Quais as três coisas que você tem que mais gosta?
  • Meus óculos vermelhos
  • Minhas fotos
  • Minhas bolsas de tecido
6. Quais são as três coisas que você não pode viver sem?
  • acessar e-mail
  • ler
  • escrever
7. Se você pudesse fazer três desejos, quais seriam?
  • que março chegue logo
  • ser repórter do Estadão
  • que dia 07 seja perfeito e meus avós cheguem até lá
8. Quais são as três coisas que você ainda não fez e quer fazer?
  • ter um filho
  • escrever um livro
  • fazer um mochilão pela Europa
9. Quais são os seus três pratos preferidos?
  • arroz, feijão, bife e batata frita
  • feijoada
  • bife à parmeggiana
10. Quais são as três celebridades com quem você gostaria de andar?
  • Zuenir Ventura
  • Pedro Bial
  • Ricky Martin
11. Diga três coisas que te assustam.
  • perder as pessoas que amo
  • assaltos
  • não realizar meus sonhos
12. Se você pudesse se descrever em três palavras, quais seriam elas?
  • dedicada
  • empolgada/agitada
  • quieta
13. Diga três coisas não usuais que você faz bem.
  • minhas unhas
  • falar rápido
  • colocar a língua no nariz
14. Diga três coisas que você têm cobiçado.
  • minha casa
  • uma máquina fotográfica digital
  • ter mais tempo e mais dinheiro
15. Quais são os três blogs que você gostaria de indicar para responder também?

Conta-me histórias
Tin tin por tin tin
Pensamentos Insanos

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Poetando
Adriana Franco

A verve pulsa
por versos curtos
de uma frase exata.


Itu, 10 de agosto de 2008
(voltando para São Paulo)

sábado, 9 de agosto de 2008

Frila conhecido

A amiga, que já trabalhou junto, chama no MSN e você já pensa: deve ser oferta de emprego - desde que você perdeu o emprego ela te oferece várias. Você já até tem um novo emprego, mas vira e mexe ela te manda uma vaga. Desde então você recusa, agradece e passa adiante (afinal há outras amigas necessitando destas vagas). - Então, quando ela te chama você já sabe. Deve ser emprego. Pois bem. Era quase.
Ela, que te considera ágil, te chama para frilar na concorrente de onde trabalharam juntas. Você, querendo todos os frilas do mundo, aceita. Mas jamais pensa que a concorrente também estará no tal evento. Pois bem. Lá estava a concorrente e os poucos conhecidos que sobraram e seguem episódios engraçados e bizarros como:
1. Andando pelos corredores percebe que de dentro do estande da concorrente o ex-chefão-master-dono-da-editora te caça por cima de cabeças alheias. Você nota, olha. E resolve que, num impulso eu sou mais eu, vai entrar e cumprimetá-lo. O faz sem dar explicação. Cumprimenta a vendedora de anúncio conhecida e - sem falar com os desconhecidos presentes - se vai. Sem explicação ou detalhes de sua presença em um evento tão "energético".
2. Dentro do estande da pagadora do frila faz contagem dos estandes que deve ir quando outro conhecido, o administrador, da concerrente adentra o estande em que está. Como já sabe que ele também não trabalha mais na concorrente e conhece o dono de onde está frilando - porque ele já trabalhou no mesmo local e saiu para fundar a concorrência - fica na boa. O dono pagador lhe chama para dizer olha quem está aqui e não sabe se quer mostrar o ex-administrador para você, ex-estagiária ou a ex-estagiária para ele, ex-administrador. Se cumprimentam e comenta: Eu sei que você saiu de lá; o pessoal sempre se reúne e me mantenho informada das fofocas. Num impulso ambos perguntam: E a ex-chefe também participa dos encontros? Você com vontade de dizer que não porque senão não teriam assuntos apenas responde: É, bem, a ex-chefe não está incluída nos encontros. Ele responde que a liderança tem suas desvantagens. E você sai, sem graça.
3. Passando pelos corredores com uma das vendedoras de anúncio pagadora passa pelo estande da concorrente onde está o ex-chefão-master-dono-da-editora que te fuzila com o olhar. Você pára e pensa: vou pedir para minha avó me benzer.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Gramaticalmente ativa

Eu conjugo o verbo frilar no presente do indicativo e no imperativo afirmativo.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Do começo de livros

Em algum blog que leio - e, agora, não me lembro qual -, o autor menciona inícios incríveis de livro. E cá está mais um. Pelo menos para mim.
" 'Sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando' - costumava dizer Ana Terra. Mas entre todos os dias ventosos de sua vida, um havia que lhe ficara para sempre na memória, pois o que sucedera nele tivera a força de mudar-lhe a sorte por completo. Mas em que dia da semana tinha aquilo acontecido? Em que mês? Em que ano? Bom, devia ser em 1777: ela se lembrava bem porque esse fora o ano da expulsão dos catelhanos do território do Continente. " Érico Veríssimo em Ana Terra.

Up-date: Como bem lembrou meu amigo Thiago é o blog Toda Prosa, de Sérgio Rodrigues que cita inícios inesquecíveis. Vá e confira.